Ucrânia e Irão. Duas faces do mesmo projeto

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 19/03/2026)


Não será por acaso que a falcão Hillary Clinton veio, numa entrevista ao programa 60 minutos, tecer loas a Donald Trump elogiando-o pelo ataque ao Irão. Democratas e republicanos servem a mesma oligarquia dos negócios. Ambos subscrevem o mesmo projeto de hegemonia global.


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Como na Ucrânia, em que os interesses de Washington não coincidiam com os de Kiev, também na guerra que opõe os EUA ao Irão, os interesses de Washington não coincidem com os de Telavive. Tanto num caso como noutro, o comportamento norte-americano encontra-se subordinado à consecução de uma grande estratégia de hegemonia global, não abandonada pela Administração Trump, enquanto o da Ucrânia e de Israel insere-se numa estratégia de âmbito local e/ou regional.

Na Ucrânia, os EUA pretendiam desencadear uma mudança de regime em Moscovo e instalar uma liderança dócil no Kremlin, atuando em três vetores: vertente económica, através das sanções, tornar a Rússia um estado pária, isolando-a internacionalmente, e impor-lhe uma derrota militar, recorrendo ao sangue ucraniano, sem colocar soldados norte-americanos no terreno.

Segundo Eric Green, membro do Conselho de Segurança Nacional durante a Administração Biden, numa entrevista à revista Time, “a vitória militar da Ucrânia não era um objetivo para Washington”. O objetivo norte-americano era provocar um desgaste prolongado e uma erosão na sociedade russa, que a fizesse soçobrar e assim atingir os seus objetivos.

Agora, enquanto Israel pretende decapitar o regime iraniano e colocar em Teerão um vassalo que lhe permita tornar-se na potência regional fazendo dos estados árabes entidades subordinadas – o que esteve quase a conseguir antes do 7 de outubro, uma vez estar a causa palestiniana adormecida e a Autoridade palestiniana num estado comatoso – com o ataque ao Irão, os EUA pretendem controlar o petróleo mundial e os principais choke points (rota do Ártico, Canal do Panamá, estreito de Ormuz) para controlarem as rotas comerciais e subordinarem os seus rivais à sua vontade, entenda-se, China e Rússia.

Por isso, Pequim e Moscovo não podem deixar cair o Irão, que joga aqui um papel extremamente importante. A sua queda garantiria aos EUA o controlo mundial do mercado do petróleo, dada a posição dominante que iria adquirir, como aniquilaria os esforços da China e da Rússia utilizarem o território iraniano para se furtarem aos choke points e ao controlo norte-americano dos mares: a Rússia através do Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul, de S. Petersburgo até Bombaim, passando pelo porto de Bandar-Abas, no Irão; e a China através de um corredor da sua “Faixa uma Rota”, de Kasghar na China, a Istambul na Turquia. O Irão ocupa uma posição estratégica central na rota terrestre, que liga a China à Europa e à Ásia Ocidental.

É crucial ter esta “nuance” em consideração porque, em função disso, os níveis de compromisso de uma e de outra parte diferem. É razoavelmente consensual admitir que Washington se terá envolvido nesta guerra com o Irão indo a reboque de Telavive. Isso mesmo foi afirmado pelo secretário de estado Marco Rubio e pelo presidente da câmara dos representantes Mike Johnson. Haverá certamente algum fundo de verdade nessas afirmações, mas o ataque ao Irão feito pelos EUA, embora inserido numa operação militar de interesse para Israel, enquadra-se na mesma lógica da guerra na Ucrânia, do controlo do regime na Venezuela, e das ambições territoriais na Gronelândia.

Não será por acaso que a falcão Hillary Clinton veio, numa entrevista ao programa 60 minutos, tecer loas a Donald Trump elogiando-o pelo ataque ao Irão, provando que, apesar das nuances, a política externa dos EUA é verdadeiramente bipartidária. Tanto democratas como republicanos servem a mesma oligarquia dos negócios. Ambos subscrevem o mesmo projeto de hegemonia global.

Donald Trump preparava-se para ir a Pequim no final de abril com a situação no Irão esclarecida, qual Julio Cesar a entrar em Roma após uma vitória militar retumbante, humilhar o presidente chinês Xi Jinping lembrando-o da sua dependência do crude iraniano, de onde a China importa cerca de 13% das suas necessidades. Se Pequim quisesse continuar com a venda de terras raras suspensa, de que os EUA tanto necessitam, teria de fazer cedências. Como os seus desejos não se vão concretizar, cancelou a visita porque é elevada a possibilidade de vir a ser ele o humilhado.

A campanha iraniana está longe de correr conforme o planeado podendo tornar-se não só num pesadelo para Trump, mas também no toque de finados no projeto hegemónico norte americano. A falta de esclarecimento levou Trump a empenhar-se decisivamente no Médio Oriente, quando a Ásia e a China eram as suas prioridades estratégicas declaradas. Nesta altura, já se fala em pedir ao Congresso cerca de $200 mil milhões para manter a operação.

Após três semanas de guerra, ficou claro que Washington não foi capaz de garantir a proteção dos Estados do Golfo Pérsico, em conformidade com os compromissos securitários assumidos com eles, não garantiu a expectável liberdade de circulação marítima no Golfo – os seus navios retiraram-se para parte incerta – teve de recorrer aos sistemas THAAD que se encontravam estacionados na Coreia do Sul, deixando desprotegidos os seus aliados na Ásia, que nesta altura estão muito céticos relativamente à capacidade dos EUA lhes conferir proteção. O mesmo se estará a pensar em Taipé. Trump destruiu o estatuto norte-americano de protetor securitário dos seus aliados em todo o mundo.

Os dois porta-aviões deslocados para a região mostraram grandes vulnerabilidades operacionais, um deles, o maior do mundo, teve de se retirar para a Grécia, devido alegadamente a um incêndio. O dispositivo militar norte-americano no Médio-Oriente foi atacado pelo Irão, algo nunca visto, encontrando-se praticamente destruído. A sua recuperação vai demorar muito tempo. Os seus rivais não voltarão a olhar para os EUA da mesma maneira. Para além de ser uma derrota pessoal, com as já notórias consequências internas, esta campanha arrisca tornar-se numa derrota estratégica formidável que poderá subverter e colocar em causa o projeto hegemónico norte-americano.

11 pensamentos sobre “Ucrânia e Irão. Duas faces do mesmo projeto

  1. Claro que todos esses bandalhos estão enterrados no Epstein até a raiz dos cabelos.
    Mas e provável que mesmo sem gramar aquele hipopótamo cor de laranja e sem estar enterrada na mesma lama esteja de uma forma ou de outra a achar o maximo a sua aventura homicida no Irão tendo em conta o sangrento curriculum da criatura e a sua igual crença no destino manifesto da nação excepcional e a única que e indispensável.
    E decididamente aquele comentário acerca do linchamento de Kadhafi e a proposta de um ataque de drones sobre Londres, feita em estilo “brincadeirinha” mas feita, para matar Julian Assange mostra que no que toca a matar ela e o hipopótamo são na realidade irmãos gêmeos.
    Por mim era mesmo encontrarem ambos um bom cardume de tubarões brancos famintos.

  2. Não há “sem Epstein”, pois eles estão metidos “com o Epstein” até à ponta dos cabelos. Assim como muita gente que ainda não é do conhecimento público, alguns já são.
    A Klingon, na tomada de posse de Trumpas 2.0, ria-se das suas afirmações ufanas e promessas megalómanas, como se tivesse num espectáculo de stand-up comedy. É bom estar atento a essas mega-produções, tomadas de posse, discursos do estado da união, etc, no sentido de perceber o que vai dentro do convento. De resto são um show de vaidades e variedades sem interesse algum.

    • *como se estivesse num espectáculo de stand-up comedy

      Na verdade notava-se bem o incómodo de ter que gramar com o hiPOpoTamUS cor-de-laranja por mais 4 anos.

  3. Hillary Clinton também conhecida como Rainha do Caos, epíteto posto pela jornalista americana Diana Johnston em livro as vésperas das eleições de 2016.
    Os povos da antiga Jugoslávia ou da Libia que o digam. Não ia agora achar uma boa ideia destruir o Irão, com Epstein ou sem ele.

  4. Não me parece que a reação da Killary tivesse sido outra se aquela gente nao estivesse, tal como Trump, enterrada até ao cachaço no caso Epstein.
    Ate há quem garanta que este ataque ao Irão começou agora justamente para desviar as atenções do caso Epstein e não e por acaso que o Irão e comentadores como Pepe Escobar chamam aos atacantes do Irão Coligação Epstein.
    Como diria o outro, isto é tudo um putedo.
    Mas a Clinton nao era por graça que era carinhosamente conhecida por Killary.

  5. «Não será por acaso que a falcão Hillary Clinton veio, numa entrevista ao programa 60 minutos, tecer loas a Donald Trump elogiando-o pelo ataque ao Irão. Democratas e republicanos servem a mesma oligarquia dos negócios. Ambos subscrevem o mesmo projeto de hegemonia global.»

    Bom, também é bom de ver que nunca faltou aos Clinton, sobretudo à Killary, o tal “instinto de sobrevivência política”, e as circunstâncias polémicas em torno dos ficheiros Epstein, omissos neste artigo, mas correlacionados com os eventos reportados (directa e/ou indirectamente), são o pretexto ideal para uma “colagem” a Trump e às suas diatribes no Médio Oriente neste momento. É uma forma de bajulação numa altura peculiar, pois esta “guerra de agressão” ao Irão até pode transformar-se num flop imenso, com custos elevadíssimos, reputacionais e de imagem, da própria maquinaria e aparelho político e militar dos EUA, pelo que a Klingon só tem a ganhar, corra bem ou mal.

    Se correr bem, fica na fotografia, mesmo que num canto da imagem. Sabuja e servil, terá a aquiescência do “Júlio Trampas César”… se correr mal, Trump afunda-se e ela pode desmarcar-se do modus operandi do dono de obra da Casa Branca, ou dizer que faria as coisas de outra forma, da forma hipócrita habitual que faz escola na “civilização ocidental”, e especialmente no “farol do mundo livre”.

    Todos os vassalos de Trump, seja por identificação ideológica ou servilismo, seja pelas circunstâncias momentâneas, a conjuntura, têm aqui o seu momento decisivo. Porque ele até já anda a chamar cobardes aos “grandes líderes” europeus, sobretudo os que pertencem à NATO (e subsidiária UE) que não alinham com todos os seus desejos e vontades.

    • Não esquecer que Bill Clinton está envolvido nos ficheiros Epstein, e quer ele quer a mulher, previamente, foram inquiridos. Estão comprometidos como está Trump. E uma mão lava a outra, quando é preciso.
      Com isto não estou a dizer que as agendas relativamente ao Médio Oriente e restante política externa são divergentes, mas que há todos os motivos e mais alguns para esta “colagem” ou “bajulação” dos Klingon ao Trampas.

  6. Excelente comentário . Analogia muito útil para explicar que o
    Modus operandi colonial americano . Sempre com a mesma brutalidade .

  7. Mas alguém ainda acredita que se fosse a killary Clinton a ganhar as eleições em 2016 teria sido melhor?
    A mulher e uma assassina cruel.
    “Chegamos, vimos, ele morreu”, ao mesmo tempo que explodia em gargalhadas felizes. Foi assim que esse monstro em forma de mulher reagiu ao bárbaro linchamento de Kadhafi.
    Essa besta perguntou com todo o descanso “can’t we just drone the guy?” a propósito de Julian Assange no início do seu aprisionamento na embaixada do Equador.
    Metodista fanática transferiu para a Rússia e Putin o ódio que tinha a União Soviética.
    E, claro, os Estados Unidos são uma ditadura bicéfala em que todos fazem bons negócios com a guerra.
    Por isso seja quem for que lá esteja será sempre a guerra que espera quem não se submeter a essa gente.
    O problema não e só o facto de os dirigentes desses partidos serem gente que a nível pessoal não vale uma casca de alho como e o caso da Killary Clinton.
    Uma criatura cuja possibilidade se ser eleita me assustava tanto como Trump.
    E o facto dela tecer loas aos ataques ao Irão mostra efectivamente que o único erro do Irão foi acreditar que era possível negociar com essa gente.
    Porque também os democratas queriam mais tarde ou mais cedo atacar o Irão. E as negociações eram só para entreter e impedir o pais de conseguir as armas nucleares que o tornariam muito mais difícil de atacar.
    Nunca perdoaram o facto de o povo iraniano ter dado um bom pontapé no cu do seu fantoche.
    Por isso querem impingir lhes um filho do fantoche dado que mesmo que o Diabo não o tivesse carregado pouco tempo depois da deposição seria agora centenário.
    O problema é que a rejeição da dinastia de tresloucados foi sempre a única coisa em que toda a gente no Irão estava de acordo.
    Uma rejeição que faz muita gente preferir a morte a tal sorte.
    Por isso resistiram. Com essa talvez muita dessa canalha não contava.

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